(as coisas que um gajo escreve quando vem dos copos)
Porque foges? Pergunto,
Só para mudar de assunto,
Sem reparar, broncomaniacamente,
Nos teus olhos cavados, fugidos,
Gazela em fuga permanente
Dos avanços masculotolamente
Feitos, refeitos, repetidos.
Teu rosto claro, levantado,
Olhar no olhar, sem temor,
Femininamente sorrindo na dor
Como gritando no amor,
Diz-me, sonhador acorrentando,
Que nado do que digo faz sentido
(de qualquer maneira continuo a fazer manguitos às ligas de temperança)
Imagino, muitas vezes, que a luta entre Jacob e o Anjo teve um final diferente daquela que narra o texto sagrado. Imagino que Jacob lutou com o Anjo até ao amanhecer e que quando a manhã chegou o Anjo ajoelhou vencido e chorou. E penso então que esta foi a mais desastrosa aventura dum homem: recusar até ao fim da noite submeter-se ao enviado do Senhor. E, finalmente, recusar-se ao Seu Senhor e perder a única oportunidade de sair de si mesmo. O Anjo chora não por si mas pelo homem que não consentiu ser vencido e liberto pelo seu deus.
É um combate assim o do encontro humano com a realidade a que chamamos amor. Ganhá-lo, recusando-o o falhando-o é perdê-lo. Perdê-lo perdendo-nos no abandono a um outro é ganhá-lo. De qualquer maneira a única possibilidade que nos é oferecida para quebrar o arco de invencível solidão que é cada homem que não encontrou o amor e não foi vencido por ele.
Eduardo Lourenço (LER)
(texto datado dos anos 50)
O sino da igreja deu um toque, era uma da manhã. A lua cheia iluminava as ruelas da vila, fugindo dela seguia junto aos muros e paredes do casario mas o silêncio da noite denunciava o som dos meus passos na calçada portuguesa. Amaldiçoei-me por ter trazido os sapatos de sola em vez dos de borracha. Atravessando meia vila cheguei ao meu destino. O cão, meio arraçado de Castro Laboreiro, ainda ladrou duas vezes mas sentindo o meu cheiro reconheceu-me e calou-se. Encostado ao muro e junto à portinhola que dava para o campo de milho, assobio baixinho; dois curtos e um longo.
Vem – disse a cabecinha loira que assomou.
O teu marido? - Perguntei.
Dorme – disse ela puxando-me por um braço
Vem meu poeta que a noite ainda está a começar.
"A Amália é ao mesmo tempo coração e é cabeça, porque é muito inteligente mas há muito sentimento, quer dizer, aquilo é verdade, não há nada postiço. Daí que haja muito poucas meias tintas, as canções da Amália são quase todas muito tristes ou muito alegres, o registo intermédio é uma coisa muito difícil para ela. Não lhe sai. Da mesma maneira que há cabeça e coração, também há palavra e música.
Uma das coisas pelas quais ela nos faz falta hoje em dia é para percebermos nessa inteligência toda qual é a componente intuitiva e a componente consciente... Ela sempre fez o que quis. O Coração independente é tudo menos uma figura, ela de facto era uma interprete que tinha de se sentir bem naquilo que cantava. Onde está entrega-se por completo; diverte-se ou sofre. Uma das Amália não é mais Amália que a outra Amália. A riqueza da personagem também assenta muito nessa contradição. Depois imagine o que é uma pessoa com esta cabeça, com este mundo, com estas coisas todas e ainda por cima com aquela voz. Que dizer...assim não vale..."
David Ferreira (filho do David Mourão-Ferreira)
em depoimento oral ao Jornal de Letras.
Paulo Querido, hoje, no Twitter:
"Racistas e fundamentalistas de direita acorrerão
hoje às urgências com apoplexias, lábios mordidos e úlceras.
Um preto esquerdista é Nobel."
LOL
LOL
LOL
Finais dos anos 70.
Visita a uma barragem meio esvaziada
pedra grande por cima da aldeia submersa
de Vilarinho das Furnas.
O art. 64º da Constituição considera a Saúde como um direito fundamental, verdadeiro direito de personalidade, inerente à dignidade humana. Daí decorre a obrigação do Estado de garantir, sem prejuízo do papel complementar do sector privado, e exercício efectivo desse direito. Segundo essa filosofia humanista, o SNS deve ser universal, geral e tendencialmente gratuito. Só a gratuitidade garante a igualdade de acesso. A igualdade é um valor ético-político, ligado à liberdade. Só há liberdade entre iguais. A única diferenciação que o Estado Social deve fazer é no Sistema Fiscal, onde cada um paga conforme o seu rendimento, e nunca no acesso aos cuidados de saúde. O SNS realiza assim uma cadeia de solidariedade, segundo a qual os que podem pagam para os que precisam. Haverá ideia mais nobre e generosa? A saúde tem de ser um direito de todos e não um privilégio de quem a pode pagar.
(António Arnaut «pai» do SNS ao Jornal de Letras nº 1016)
Nos finais do ano passado o meu tio, Manuel Miranda Ramos Lopes, Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, faleceu repentinamente. Não vou falar aqui da questão emocional do evento mas sim de uns “escritos “ que ele enviara por correio ao seu irmão, meu pai, dias antes do seu falecimento. Num desses textos ele conta alguns picarescos episódios passados com o Mestre Elísio de Moura (http://pt.wikipedia.org/wiki/Elísio_de_M
O assunto despertou-me a atenção porque, ainda petiz, conheci Elísio de Moura. Avenida Sá da Bandeira acima, seguia agarrado às mãos dos meus pais quando se aproxima Elísio de Moura. Reparando que eu me começava a colocar de lado e a olhar de esguelha, o meu pai, depois de cumprimentar o Professor, chamou-me a atenção. Pois…de riso estava Elísio de Moura. Reputado neuropsiquiatra, quando estava na presença de uma criança procurava espicaça-la, obriga-la a reagir, e eu já tinha passado pela experiência, daí a minha reacção.
Vamos então aos episódios:
1.
«Em viagens pelo norte sucedia, algumas vezes, passar em Amarante. E era seu costume parar numa conhecida casa – “Zé da Calçada” – onde o serviço de mesa era assegurado por duas simpáticas e gentis moçoilas, sempre presentes.
Ora aconteceu que, numa dessas viagens, o Professor notou que uma delas (a Josefa, chamemos-lhe assim) não estava nesse dia, nem estava noutra sua passagem tempos depois. O que levou o Mestre a perguntar à sua companheira:
“- Olha lá, a Josefa? Não tem estado…”
A colega ficou triste e silenciosa, o que levou Elísio de Moura a continuar:
“- Está doente? Deixou a casa? Morreu? O que se passa?”
E aí a companheira, extremamente triste, respondeu:
“- Não, Senhor Doutor. Emputeceu…”
O Professor compreendeu…E, apesar de os Dicionários da Língua não registarem o verbo (mesmo o HOUAiSS, nesta acepção), nós também compreendemos. Pois não é o povo quem faz a língua?»
2.
«Certo candidato que tendo apresentado uma dissertação de doutoramento sobre “punção lombar” a intitulou de “Raquicentese”, neologismo que desagradou a Elísio de Moura que aí o combateu activamente com argumentos que o candidato não foi capaz de rebater. Pelo que – abrindo uma pasta – dela tirou um livro que exibiu triunfalmente dizendo:
“ – Tenho aqui uma dissertação francesa sobre o mesmo tema e que tem exactamente o mesmo título que eu dei à minha e V. Exa. está aqui a combater Raquicentese.”
Ao que Elísio de Moura imediatamente contrapôs, a terminar:
“- E isso que prova? ...Prova tão somente que o senhor nem na asneira foi original…”
Isto é lindo!
LA ERA ESTÁ PARIENDO UN CORAZÓN
Le he preguntado a mi sombra
a ver como ando para reírme,
mientras el llanto, con voz de templo,
rompe en la sala
regando el tiempo.
Mi sombra dice que reírse
es ver los llantos como mi llanto,
y me he callado, desesperado
y escucho entonces:
la tierra llora.
La era está pariendo un corazón,
no puede más, se muere de dolor
y hay que acudir corriendo
pues se cae el porvenir.
En cualquier selva del mundo,
en cualquier calle.
Debo dejar la casa y el sillón,
la madre vive hasta que muere el sol,
y hay que quemar el cielo si es preciso
por vivir.
Por cualquier hombre del mundo,
por cualquier casa.LA ERA ESTÁ PARIENDO UN CORAZÓN - Silvio Rodríguez
ONLY ANGELS HAVE WINGS - Howard Hawks
"Há as personagens que não gostam de falar, têm ouvido apuradíssimo e se dão mal com a luz (quase toda as personagens masculinas). Há as personagens que querem contar tudo e que se lhes diga tudo, interpretam mal os sons e de noite vêem tudo pardo (quase todas as personagens femininas). A guerra dos sexos está declarada e é tão simples ou complexa como tudo isto.
...
Alguém traz os objectos retirados do corpo de Joe. Geoff mostra-os a Bonnie (só então começam os grandes, grandes planos) e diz-lhe que, se ela quiser, pode ficar com um souvenir. Bonnie olha com atenção e escolhe um bonito anel. «Você tem bons olhos», diz, mordaz, Geoff. Ela (grande plano) olha-o severamente e em silêncio. Volta-lhe as costas e dá o anel à nativa que fora namorada de Joe e que, a um canto, foi a única que, durante essa longa sequência, sempre chorou baixinho, sem dizer nada. Grande plano de Geoff, assombrado. Quem não tivera bons olhos fora ele. E quando Bonnie, depois de todos se terem ido embora, volta para o pé dele, pergunta-lhe que mulher lhe fez tão mal que o tornou assim. Geoff não responde e pede-lhe um fósforo. Bonnie, que já reparou que ele é homem que nunca tem lume, observa-lho. E ele responde que não gosta de ter coisas que se gastem. «Fósforos, modelos, dinheiro». «Mulheres?», devolve-lhe Bonnie."
in
OS FILMES DA MINHA VIDA (2º VOLUME) - JOÃO BÉNARD DA COSTA
. de castanhas e vinho do d...
. Entreacto – Significação ...
. Contos Outonais - à noite...
. Amália - Coração Independ...
. acerca do nobel para o Ob...
. LA ERA ESTÁ PARIENDO UN C...
. "E a magia renasceu num c...
. Os meus links
. Aragana
. So12
. O Tecto
. Grilinha
. 100nada
. Gotikka
. Murcon
. links que valem a pena