O jogo dos olhares
disputa-se num canto do
terreno de jogo sem que o árbitro, cego
pelo fogo de artificio,
note a mão na bola
minuto 90
e as balizas virgens gritam
diatribes onomásticas aos defesas
(a culpa, sempre a culpa, é do árbrito)
LA ERA ESTÁ PARIENDO UN CORAZÓN - Silvio Rodríguez
- Olá, disse ela quando atendi o telemóvel.
(Há dez anos que não ouvia aquele voz. Mas reconhecia no mesmo instante)
- Olá, disse eu com a voz rouca, como vais?
- Na mesma, e tu?
- Vou andando.
- Por lá...como vai tudo?
- Na mesma. Tudo na mesma! Porque ligaste?
- Para te torturar (e desligou).
(a música? A Whiter Shade Of Pale dos Procol Harum...obviamente)
- Que se passa?
- Pois. Eu sei, tenho abandonado o blogue. Bom...não é tanto um abandono, é mais falta de assunto, talento para escrever e vontade.
O cansaço. O cansaço de tudo, talvez do Inverno...sei lá.
Prometendo voltar com qualquer coisita deixo aqui um pouco de Léo Ferré...revisitado.
No mundo moderno é tudo muito social, todos têm facebook, um grupo de amigos, colegas de turma ou de trabalho. No entanto, há uma grande solidão. Daí que seja tão importante o amor. É a única forma de as pessoas se entregarem a outro, de se sentirem acompanhadas. É por isso que nos continuamos a apaixonar.
David Trueba em entrevista ao Jornal de Letras
...Muitas apenas em teoria a solo, há portugueses que vivem sozinhos e não sós, amam sem partilhar a caixa de correio. Alguns já o fizeram, com ou sem papéis assinados. O discurso destes gira, com frequência, à volta da seguinte ideia: «Venha o amor, mas juntar outra vez os trapinhos é que não!» Ao escutá-los, é impossível não pensar que desenvolveram - ou simplesmente descobriram? - certa «claustrofobia» afectiva e espacial, necessitam de espaço psicológico e físico privados, embora no âmbito de uma relação.
Júlio Machado Vaz, O Amor É...
"Porto modelar, qual quintessência do tipo Porto Colheita, um vinho de deuses, de aroma interminável. Pura seda. Um dia é preciso provar um vinho assim para perceber o nível de qualidade a que pode chegar um Porto envelhecido em casco."
João Paulo Martins na RevistaÚnica
Olha pá, nós da colheita de 55 somos assim!
eu
(as coisas que um gajo escreve quando vem dos copos)
Porque foges? Pergunto,
Só para mudar de assunto,
Sem reparar, broncomaniacamente,
Nos teus olhos cavados, fugidos,
Gazela em fuga permanente
Dos avanços masculotolamente
Feitos, refeitos, repetidos.
Teu rosto claro, levantado,
Olhar no olhar, sem temor,
Femininamente sorrindo na dor
Como gritando no amor,
Diz-me, sonhador acorrentando,
Que nado do que digo faz sentido
(de qualquer maneira continuo a fazer manguitos às ligas de temperança)
Imagino, muitas vezes, que a luta entre Jacob e o Anjo teve um final diferente daquela que narra o texto sagrado. Imagino que Jacob lutou com o Anjo até ao amanhecer e que quando a manhã chegou o Anjo ajoelhou vencido e chorou. E penso então que esta foi a mais desastrosa aventura dum homem: recusar até ao fim da noite submeter-se ao enviado do Senhor. E, finalmente, recusar-se ao Seu Senhor e perder a única oportunidade de sair de si mesmo. O Anjo chora não por si mas pelo homem que não consentiu ser vencido e liberto pelo seu deus.
É um combate assim o do encontro humano com a realidade a que chamamos amor. Ganhá-lo, recusando-o o falhando-o é perdê-lo. Perdê-lo perdendo-nos no abandono a um outro é ganhá-lo. De qualquer maneira a única possibilidade que nos é oferecida para quebrar o arco de invencível solidão que é cada homem que não encontrou o amor e não foi vencido por ele.
Eduardo Lourenço (LER)
(texto datado dos anos 50)
O sino da igreja deu um toque, era uma da manhã. A lua cheia iluminava as ruelas da vila, fugindo dela seguia junto aos muros e paredes do casario mas o silêncio da noite denunciava o som dos meus passos na calçada portuguesa. Amaldiçoei-me por ter trazido os sapatos de sola em vez dos de borracha. Atravessando meia vila cheguei ao meu destino. O cão, meio arraçado de Castro Laboreiro, ainda ladrou duas vezes mas sentindo o meu cheiro reconheceu-me e calou-se. Encostado ao muro e junto à portinhola que dava para o campo de milho, assobio baixinho; dois curtos e um longo.
Vem – disse a cabecinha loira que assomou.
O teu marido? - Perguntei.
Dorme – disse ela puxando-me por um braço
Vem meu poeta que a noite ainda está a começar.
"A Amália é ao mesmo tempo coração e é cabeça, porque é muito inteligente mas há muito sentimento, quer dizer, aquilo é verdade, não há nada postiço. Daí que haja muito poucas meias tintas, as canções da Amália são quase todas muito tristes ou muito alegres, o registo intermédio é uma coisa muito difícil para ela. Não lhe sai. Da mesma maneira que há cabeça e coração, também há palavra e música.
Uma das coisas pelas quais ela nos faz falta hoje em dia é para percebermos nessa inteligência toda qual é a componente intuitiva e a componente consciente... Ela sempre fez o que quis. O Coração independente é tudo menos uma figura, ela de facto era uma interprete que tinha de se sentir bem naquilo que cantava. Onde está entrega-se por completo; diverte-se ou sofre. Uma das Amália não é mais Amália que a outra Amália. A riqueza da personagem também assenta muito nessa contradição. Depois imagine o que é uma pessoa com esta cabeça, com este mundo, com estas coisas todas e ainda por cima com aquela voz. Que dizer...assim não vale..."
David Ferreira (filho do David Mourão-Ferreira)
em depoimento oral ao Jornal de Letras.
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