17 de Agosto de 2009

Já comprei o novo CD/DVD do Camané – Ao Vivo No Coliseu.

Deixo-vos o texto de David Ferreira, que acompanha o CD/DVD seguido do video dessa grande música/grande interpretação "Sei de um Rio"

 

Na vida de um cantor há sempre uma voz, reportório, público – e, com sorte, uma carreira.

 

Depois, cabe a cada um estabelecer uma ordem de prioridades. À primeira vista, grandes cantores privilegiam a voz, cantautores o reportório, os mais comerciais o público. Mas não é bem assim.

 

O público sempre estimulou a inovação e o aperfeiçoamento na Música Popular. E não se trata só de ganhar dinheiro; o sucesso permite vencer uma desesperada solidão ou encontrar um reconhecimento vital. Muitas vezes, o maior engenho nasce de problemas enfrentados no palco ou de sofrer até passar ao público o que parecia difícil de transmitir.

 

Já a voz…pensar demasiado nela nem sempre se aconselha. Quem tem técnica e capacidades vocais e julga que se canta só com a garganta é pouco mais que um artista de circo: dribla, dribla, mas não marca golos nenhuns.

 

Finalmente, há aqueles que pensam sobretudo no que cantam, que procuram as boas canções e o que elas às vezes têm escondido. Só quando encontram lhes dão voz e as levam ao público. Com sorte – mas é um bónus natural – ganham uma carreira.

 

Há dias, ao seguir as últimas do campeonato nacional da escolha da nova Amália, dei comigo a pensar no que mais aproximava o Camané daquela que me telefonou, num dia de 31 de Dezembro do século passado, a aconselhar-me (à sua maneira, mas isso é outras história) que o contratasse: “aquele rapaz está no caminho certo…”.


Sabendo como o Camané evita qualquer imitação gratuita, aposto que o ta caminho, o traço de família, só pode ser menos visível, mais profundo; muito mais importante.

Camané nunca sacrificaria à carreira a escolha das suas canções. Tal como Amália. Quantas vezes a vi insuportavelmente obstinada em cantar apenas o que lhe apetecia? E não é também a isso que deve um reportório até hoje incomparável?


Segunda semelhança: ao meter tudo – a voz, cabeça e coração – num fado, estes cantores que me são tão caros confundem-se com o que cantam, percorrem sem rede o arame das emoções mais extremas e chegam a precipitar-se em abismos…Para onde vão? Para onde fomos nós depois de os ouvirmos? Ninguém sabe.


Às voltas com este texto, descobri que os meus cantores preferidos oferecem àquilo que cantam o mesmo que, um dia, um poeta colocou na voz de um deles: rendição sem condições/ eis a minha rendição.


O poeta era o meu pai, David Mourão Ferreira. Desculpem se só me apetece falar das pessoas de quem gosto. Agora tenho pretexto para citar outras, os grandes e rigorosos músicos do Camané, quem escreveu (hoje ou há muito tempo) para este disco e (sempre com a Manuela de Freitas) o nunca suficientemente louvado produtor José Mário Branco, inesperado franciscano do fado, despojado, essencial, surpreendente.


Quando contratei o Camané para gravar um disco, há quase quinze anos, ele disse-me que sim mas teve que precisar, corando, quase a gaguejar: “há uma coisa importante, olhe que eu só sei cantar isto…”. Ainda bem. É uma sorte poder gostar de ouvir o Camané.

 

David Ferreira

 

CAMANÉ "Sei de um Rio"

 

publicado por carlos lopes às 19:12

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