07 de Fevereiro de 2007
Já há algum tempo que não trago aqui nada do João Bénard da Costa, de maneira que hoje serão dois postos com excertos do artigo que ele escreveu no Domingo passado no jornal Público:

"Una Voce Umana, que já foi encenado de mil maneiras, que já serviu de base a uma ópera e a muitos filmes de televisão, é a história de três conversas telefónicas entre uma mulher dos seus trinta e muitos, quarenta e poucos, que está sozinha em casa, com um homem que foi amante dela. Ele telefona-lhe para dizer que se vai casar com outra bastante mais nova, e nunca mais o vemos ou ouvimos. Em cena - ou no filme, no plano - só a mulher (Anna Magnani), um cão, um telefone preto e uma enorme cama.
...
Já alguém disse que se falasse ao telefone com aquela mulher, mesmo sem a conhecer, não teria querido outra. Mas os homens são muito superficiais e até aquele que por três vezes lhe telefona e pelos vistos a conhece bem, a deixa e desaparece."
publicado por carlos lopes às 10:47

06 de Fevereiro de 2007
Maria do Céu da Cunha Rego, hoje, no jornal Público:

O que se lhe pede, a 11 de Fevereiro, é que diga se quer ou se não quer que uma mulher de quem gosta ou você mesma - se um dia for o caso, e vá-se lá saber o que a vida nos traz - seja devassada pelas instituições do Estado, humilhada e ofendida por terceiros e talvez privada da liberdade, porque não quis, com as suas razões de ser livre e autónomo, que o Estado e a consciência alheia a obriga-se a ser mãe à força.

(mais nada)
publicado por carlos lopes às 11:30

05 de Fevereiro de 2007
Única, revista do jornal Expresso nº 1788 de 3 de Fevereiro de 2007:

… Mas. Aquele rapaz em Arzila, armado cavaleiro num chão de sangue e areia, que do pai perdulário recebe de herança apenas os caminhos de Portugal, que com a mesma mão mandou seguir para as Índias, África abaixo, e empurrou a lâmina que esventrou nobreza traidora (que em ti se cumpra o que contra mim conspiravas). Esse. Esse todo. Esse único. Deixem este cidadão votar, que por vezes lhe vem pena de ter nascido cinco séculos mais tarde. E do pouco que há-de dizer sua lápide singela, arranjem espaço para acrescentar, miudinha letra que seja, que ele que se despedia com o País o mundo perdidamente admirava Dom João Segundo.

 (Rodrigo Guedes de Carvalho)

 

… Mas o que mais me aflige hoje em dia é a situação precária e humilhante em que vivem os imigrantes. Angustia-me a forma como são tratados os africanos e esta nova vaga de imigrantes de Leste, mesmo pelos portugueses que estão ao nível do que eles. Não levam nada desta vida além da falta de respeito.
Sinto-me constrangida a olhar para eles nas obras de construção civil que tenho de vigiar enquanto técnica, sempre que há movimentação de terras, e a pensar que tenho nas mãos o meu ideal de vida: andar com as botas na lama emocionarem constantemente com a descoberta.

(Joana Vivas, técnica de arqueologia)

 

…Não espero que Marcelo (Rebelo de Sousa) saiba o que é um aborto clandestino, ou o que sofrem as mulheres pobres que espetam agulhas ou praticam o aborto de vão de escada. Naquele mundo admirável e burguês onde vive uma existência doce o professor Marcelo, essas coisas simplesmente não são faladas, questão de educação. A hemorragia, o sangue, a pele furada, o útero escavacado, a torpe acção clandestina, trabalho de mulheres sobre mulheres ao qual o professor é estranho e continuará, por razão fisiológica civilizacional, estranho, são coisas feias de mais. Os pobres são outro país, os ignorantes também. Quando era um político no activo, o professor saía muito à rua a cativar o voto dos pobres. Na verdade, os pobres em tempo eleitoral são como as mulheres que abortam, uma abstracção, um, digamos, «estado de alma».

(Clara Ferreira Alves)

 

publicado por carlos lopes às 14:19

Ó Rosa, Rosa brava, brava rosa,
que pena teres nascido num país de merda,
bafiento, salazarento.

Foge, enquanto há tempo,
enquanto o tempo não escorre
como areia nas nossas mãos.
publicado por carlos lopes às 08:55

01 de Fevereiro de 2007

Sonhei que vinhas – disse ela.
E eu sonhei-te – disse ele.
Então juntemos os nossos sonhos – disse ela.
Já estou a sonhar – disse ele.

publicado por carlos lopes às 11:03

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