12 de Novembro de 2007

As ruas da cidade estão sujas. Sujas de egoísmo, cada um sozinho nos seus pensamentos, não olhando o parceiro do lado, não vendo quem está caído. Ninguém liga a ninguém a não ser em interesse próprio. Os mendigos têm nos cães vagabundos os melhores amigos, no polícia que o manda afastar-se um verdugo, no transeunte que passa à volta um Pilatos e no estado do tempo a materialização do medo. As batinas dos padres varrem o chão sujo dos passeios mas ao fim do dia vão para a lavandaria, a sua alma não sei. A esmola de umas migalhas dadas aos pobres contrasta com a imensidão de edifícios erigidos para grandeza de Deus e para regalo de quem olha e paga o dízimo – senhores de fatos caros, engravatados, a ajudar “madames” a sair do carro à entrada de um restaurante de luxo.

Do outro lado da noite a Lua espelha-se nas poças de água e a esperança de encontrar a Audrey Hepburn, com uma guitarra nas mãos a cantar Moon River sentada numas escadas de incêndio, está cada vez mais longe. No entanto vi passar a correr um gato todo molhado e fiquei com a esperança que a Audrey viesse atrás. Claro que é uma patetice, nem sequer temos uma aloja da Tiffany's onde ela poderia acabar a noite comendo um rápido Breakfast para terminar a noite.

Momento parado. Rede interna parada, suspensa de uma determinada operação. Nem nada, coisa nenhuma ou qualquer outra coisa para fazer. Ociosidade? Não, apenas um momento de espera onde uma folha em branco espera que as roldanas do pensamento dêem ordem às mãos para escrever qualquer coisa. Um momento apenas que se eterniza no pensamento. Frases feitas a jogar pingue-pongue com palavras que aparecem detrás de não sei que árvore que plantei há muito na cachaporra. Já nem me lembro porque plantei a árvore mas eu gosto de árvores e rios, e rios. Um barco qualquer que me leve para longe desta pasmaceira, que desça o rio até ao mar e me transporte para África, ou para o Oriente, ou para o América do Sul. Um sítio qualquer onde o quadro de Munch, O Grito, não faça parte do nosso quotidiano.

 

publicado por carlos lopes às 16:17

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