21 de Setembro de 2007

Oito e meia da noite. Era o último dia, a última noite, que aquele restaurante do grande hotel estava aberto. A sala grande ia ser transformada em mais uma dependência de um grande banco. No topo esquerdo a orquestra da casa, apenas oito músicos que a crise chega a todos, já tinha começado duas ou três músicas mas não as tinha acabado, tocar para ninguém é algo frustrante. Parecia que as pessoas, sabendo que era a última noite, se afastavam como quem se afasta de um animal moribundo. A sala vazia com os seis criados de casaca postados, em fila, junto à porta de vaivém que ligava à cozinha, era uma visão dorida.

O chefe de sala olhava para o relógio quando o casal entrou na sala e se sentou numa mesa junto ao espaço dançante, largo, perto da orquestra. Era um casal idoso, talvez na casa dos sessenta. Com um sinal do queixo o chefe de sala mandou um dos criados para junto do casal. Encomendaram e jantaram parcamente. Já com a refeição completa a senhora dá um toque na mão do companheiro e ele sorri, levanta-se e vai falar com o maestro. Volta para a mesa e pegando na mão da companheira dirigem-se para o centro do espaço dançante. Quanto a sua mão enlaça a cintura da companheira a orquestra começa a tocar Strangers in the night, a célebre música celebrizada por Frank Sinatra. No final da música dirigiram-se para a mesa e o chefe de sala, que estava por perto, reparou nos olhos húmidos de ambos. O cavalheiro pediu a conta e quando se dirigiam para a saída, acompanhados pelo chefe da sala, explicou em tom baixo:

- Sabe, nós conhecemo-nos aqui, nesta sala, há cerca de trinta anos. Fomos apresentados por amigos comuns e a meio da noite a orquestra começou a tocar a música do Sinatra. Convidei-a para dançar quase nem reparamos que a música tinha acabado. Algo tinha começado dentro de nós. Desde esse dia não passou um dia que fosse que não estivesse--mos juntos. Nós hoje não faltaríamos aqui, nem que fosse preciso de vir do outro lado do mundo.

Saíram, e o chefe de sala quando voltou ao seu lugar tinha a cabeça mais levantada, orgulhoso, e um brilhozinho nos olhos.

publicado por carlos lopes às 14:21

LINDO! Há coisas tão bonitas na vida!
21 de Setembro de 2007 às 16:33

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